“Opostos”

Ele era mau, ela era boa. Simples assim, ele era toda a força do mau, era movido por uma energia maligna, uma nevoa sempre densa, escura, fria, e carregada de ódio. Ela era um ser de luz, tocada pela energia do sol, do amor, espalhava a bondade, a cura era o seu dom. E assim eles eram antagonistas naturais, como assim determinou o destino.
Mas o destino brincou, errou, se descuidou, esqueceu o principal sentimento que faz a humanidade singular: o amor. E eles se amavam. Isso era o fim.
Como podiam o bem e o mal coexistir, tão pacificamente?! Pois existiam, escondidos, clandestinos, sozinhos. Mas eles nunca estariam sozinhos, lutariam até o fim pelo seu amor, mesmo que para isso, vez ou outra, perdoassem as faltas um do outro. Esses perdões, esse descaso que os dois faziam em relação ao seu trabalho, estava chamando muita atenção, dos dois lados do jogo. Alguém tinha que tomar uma providência, e rápido, antes que os dois magos perdessem o controle do jogo, e a balança, pendesse para um lado. E nenhum dos dois, mesmo amantes, podia deixar que isso acontecesse.
Já passava da meia-noite quando se encontraram na antiga cabana, no alto da colina, era um clichê, mas era atrás de uma gruta, entre árvores, difícil acesso a noite, a floresta se adensava nessa parte. Para alguém sem magia, era complicado, não para dois magos. Lyra chegou primeiro, rindo, esse era o seu jeito, a hora mais feliz para ela, era a hora em que caia nos braços do seu amado, mesmo que seu amado fosse seu maior inimigo, mesmo ela tendo total consciência, de que tudo estava errado, não era assim que devia ser, ela deveria amar um mago como ela, das forças do bem, ou mesmo um homem comum, quem poderia amar seu inimigo?! Mas ela amava, e tinha certeza que era totalmente correspondida. Ela fez um aceno displicente com as mãos, e a pequena cabana se acendeu cheia de vida, logo um fogo brando, pulava na lareira, e o cheiro do vinho, e das cobertas e lençóis limpos, cobria todo o ambiente. Ele está atrasado, ela pensou. Mas será o tempo de preparar uma pequena refeição. Sim ela queria agradar o seu amado, e queria que ele chegasse logo.
Darak estava com problemas pra sair do castelo, parece que nessa noite em especial, todos tinham tirado motivos torpes, pra mantê-lo acordado, e mal-humorado, pela noite inteira, porque todos sabiam que o mago negro se recolhia cedo. Mas os problemas hoje pareciam não estar dispostos a lhe darem trégua para ir vê-la. Eu preciso tanto vê-la. Não podia esperar nem mais um minuto com essas delongas, tinha que se apressar, provavelmente Lyra já estava a sua espera. Já estou indo meu amor. Sem grandes desculpas, anunciou que estava a se recolher, pois naquela noite deixou de invocar alguns feitiços, e ainda tinha até o nascer do sol, para fazê-los, ou teria problemas com aquela pomba branca, logo pela manhã. Pomba branca, era como ele se referia a Lyra, sua inimiga, sempre que podia desmerecer sua magia. No entanto ele agora só queria abraçar o seu amor.
Saindo rápido pela lateral secreta do castelo, ele nem percebeu a movimentação atrás dele. Uma figura alta, encapuzada, estava seguindo o mago negro. Ele na sua pressa, só se deu conta, quando uma mão branca, com dedos compridos, pálidos e unhas grandes, negras, tocou seu braço e disse:
- Muito boas noites, mago Dakar, vejo que está com pressa. Não quero lhe atrasar ainda mais essa noite. Será que posso roubar, talvez 5 minutos do seu precioso tempo?
Era possível, que o mago negro, o senhor do mal, sentisse medo?! Ele descobriu que sim, naquele momento, pois aquela mulher, de um aspecto fantástico, mas sobrenatural, com uma voz rouca, sensual, e de olhos vermelhos, vermelho sangue, não poderia naquele momento, roubar mais nada dele, porque nesse momento ela já tinha roubado seu fôlego. Porque ele estava com medo? E porque ele teve a certeza que ela estava ali para lhe falar de Lyra. Ele teve um sobressalto, pensou em Lyra, na cabana esperando por ele, talvez até fazendo seu prato favorito, sorrindo doce como sempre. Ele a amava, e tinha certeza que essa mulher, ou criatura, ele não sabia definir, estava ali para acabar com essa festa dos magos amantes, que já durava 2 anos. Mas quando falou, foi firme:
- Boas noites senhora, se me conhece, sabe que quando encerro as atividades, não costumo voltar a falar com ninguém, e me dedico exclusivamente a minha mágica. Mas estou lhe ouvindo agora, e gostaria de saber, qual assunto não pode esperar até amanhã?! - Ele quase se arrependeu da sua brincadeira, e ele sabia qual era o assunto, e estava com muito medo da resposta.
- Realmente não volta a falar com ninguém... que interessante! Esse ninguém envolve uma pomba branca?! Como é mesmo o nome dela meu senhor...?!
Seria um jogo interessante, se ele não estivesse com um temor tão grande por essa mulher, ela sabia, e não estava com brincadeiras, nem rodeios, foi direta. E o descaso proposital quando ela disse meu senhor, não foi nada de bom, teve certeza de que ela jamais o consideraria como senhor de qualquer coisa que fosse, e pelo que ela sabia, provavelmente não voltaria a ser senhor de mais nada...
Resolveu mudar de atitude, postura. Se iria enfrentar um adversário, não daria o gosto do triunfo tão fácil.
- Muito bem, vejo que está muito bem informada. Mas não me parece claro seu intento. Poderia ser mais direta, ou especifica, porque veja bem, não tenho tempo.
- Ah não se preocupe mago Dakar, agora você tem todo o tempo do mundo, as noites livres para praticar a sua magia, sem pressa.
- O que?! Dakar exigiu.
- Tempo. É o que não lhe falta a partir de agora mago. E isso foi tudo que o senhor perdeu essa noite. Atendendo aos seus discípulos, súditos, ah sim, obrigações de um Rei! Só há um porém, você não é o rei, não é mestre. Não é mestre de nada, muito pelo contrário, você serve ao verdadeiro mestre. E foi a pedido do mestre, do meu mestre, que eu vim aqui hoje, lembrá-lo disso. Você acaba de ser perdoado, o mestre foi até gentil com você, eu teria feito mais... No entanto, lembre-se mago, você é servo, e não há uma segunda chance para você, agarre essa. Ou ainda existe mais alguma cabana perdida por ai?!
A resposta ficou no ar, e Dakar já corria desabalado em direção a cabana. Ele ainda teria tempo de ver as chamas que subiam a altura dos céus, como se o próprio inferno, estivesse queimando a montanha.
E a dor que tomou conta dele, quando teve aquela visão, aquela certeza de que nunca mais veria sua amada de novo... Então ali... tudo perdeu a razão. Ele não sabia quem era. Como tudo aconteceu tão depressa, que seu mundo foi tirado do eixo, e ele estava agora sozinho, sem chão, como jamais esteve em toda a sua vida.
Então ele se lembrou do dia que fez o pacto com as trevas, lembrou do abandono, do medo que sentia naquela floresta, do medo dos seus inimigos, do seu pai e do seu mestre. Naquele dia ele estava pronto, a deixar tudo de bom que aprendeu, para ser um renegado, um mestre da arte obscura, indo contra tudo que ele aprendeu durante a vida, disposto a mudar sua vida, a aceitar uma nova missão de vida. Ele sofreu, mais venceu. Sobreviveu. E para quê?!
Toda a sua vida, após se transformar no mago negro, foi de dor, de desgraça, de sofrimento. Que ele fazia aos outros, e agora simplesmente, como ele bem sabia, a lei do karma fazia seu trabalho. Ele que acabara com tantos amores, destruía tantos casais, tinha perdido seu par, e para quê?! Pra descobrir que sozinhos, não somos nada. E que tudo que se faz, se recebe na mesma moeda.
Sentindo uma dor tão grande no peito, por ele, por sua amada, por todos aqueles que padeceram pelas suas mãos. Ele correu em direção ao abismo.
- Lyra, você era a melhor parte de min. Sem você, não posso ser inteiro. Até breve meu amor.

by Rain

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