Hora do intervalo, Scoth, Tom e Sofie, só tinham 15 minutos pra fumar um. Mas faltava Derek com o papel de seda.
- Nossa o Derek é um imbecil, eu vou mata-lo, só temos mais 10 minutos!
- Calminha ai Sofie, ele tava devendo matéria pro idiota do Sr. Champs, ele não podia simplesmente sair correndo da sala, falando que tava atrasado pra fuma um na biblioteca. Riu Tom e Scoth o acompanhou.
- Bem que agente podia dar um malhos em Sofie?! Pra passar o tempo. Enquanto o Derek não chega. É melhor do que ficar ai reclamando sozinha, chega mais Su...



Ele atravessou o longo corredor interno, ouvindo os próprios passos ecoarem pela gigantesca nave oval, seus olhos percorreram os belíssimos mosaicos das longas janelas que circundavam toda a antiga igreja. Os adereços, o teto alto e ricamente decorado, os bancos de madeira envernizada; não cansava de admirar a arte e a fé impressa em toda beleza ao seu redor.

Fechou a grande porta principal e abriu as duas portas laterais menores. Era orgulho de toda a congregação o fato da Igreja de Santa Maria manter suas portas abertas o tempo todo àqueles que necessitavam do conforto da casa do Senhor.

Recostou-se no batente da porta e ficou observando as sombras se alongarem sobre a cidade enquanto o sol sumia no horizonte e o céu tingia-se de tons azuis dourados até marinhos.

- Logo a noite chegara – pensou Davi – E ela também...

Um pequeno sorriso surgindo em sua face jovem, seu rosto ainda conservava a inocência de uma criança, apesar de seus 23 anos, e em seus enormes olhos negros, pairava sempre uma expressão de infinita admiração perante o mundo.

Ainda criança saíra dos seios de sua pequena família camponesa e fora viver no mosteiro próximo, nunca mais voltara para casa; sempre, lhe parecia agora, vivera dentro de igrejas, elas eram seu lar, nelas se sentia em casa. E logo, faria um ano que prestara os votos e se tornara um padre, - Não era mais o pequeno Davi – pensou - Era agora o padre Davi – o sorriso em sua face se ampliando e deixando a mostra seus dentes perfeitos e muito brancos, que contrastavam com a cor dourada de sua pele lisa, ainda agora, se sentia em jubilo só de lembrar-se do dia em que jurara se dedicar a Deus, pensou afastando um cacho negro e brilhante de seus cabelos que lhe caíra nos olhos, sempre soubera qual era o seu destino, assim como sempre soubera também que este seria servir a Deus.

Percebeu distraído, que o céu já estava quase totalmente negro e voltou-se apressado para o interior da igreja, tinha ainda que acender todas as velas e também os incensários, tudo devia estar pronto para a noite, e para quando ela chegasse.

- O meu anjo – disse baixinho, enquanto caminhava de volta a Igreja.

Ela começara a aparecer a cerca de três meses, vinha toda noite, não importava como estivesse o tempo, entrava pela porta lateral, sempre com o capuz levantado cobrindo seu rosto, caminhava devagar até o confessionário da esquerda e lá entrava para passar cerca de duas horas conversando com Davi.

Sua voz era doce e macia, e através daquela voz, Davi podia supor que ela fosse tão jovem quanto ele. Apesar de nunca tê-la visto realmente, a não ser pela entretela da pequena cabine do confessionário, sabia através dos pequenos relances, que sua pele era muito branca, que seus cabelos eram castanhos dourados e que seus movimentos eram ágeis e graciosos como os das verdadeiras damas.

Sabia pelas suas conversas que ela devia pertencer a uma família abastada, pois sempre lhe contava de suas viagens pelo mundo, e Davi se inebriava com seus relatos dos povos, das cores, sons e perfumes dos lugares exóticos que ela visitava, se inebriava principalmente com as igrejas que ela lhe descrevia em detalhes.

Nunca estranhara o fato dela não lhe contar nada de realmente pessoal, ou dela ser sempre tão curiosa com relação a vida de Davi no mosteiro, ou mesmo de antes do mosteiro, pedia-lhe inúmeras vezes que descrevesse para ela sua família, a vila onde morara antes de ir para o mosteiro, e ele lhe contava tudo de que podia se lembrar, feliz e encantado pela atenção recebida.

Sem se dar conta realmente, passava os dias ansioso, a espera da chegada da noite, a espera daquele momento mágico em que ouviria o suave toque dos passos dela pelo corredor de mármore, a espera de sentir o perfume que seu anjo deixaria ao se aproximar dele.

As horas se arrastaram naquela noite quente, a brisa leve que entrava pelas altas janelas, não era suficiente para refrescar o ambiente abafado da noite de verão.

Davi se sentou pela milésima vez, sonolento pelas horas de espera e pelo calor sufocante. Olhou novamente para o relógio e um medo surdo lhe subiu pelas costas, 23:00 horas, ela nunca demorara tanto, teria acontecido algo, pensamentos envolvendo todo tipo de acidentes lhe invadindo a mente cansada. - E se ela não vier? – murmurou baixinho – E se ela não vier nunca mais? - sentiu-se tremer – Não – sua voz baixa, mas cheia de fervor, cerrou os olhos e murmurou uma prece pedindo pela proteção ao seu anjo.

E então um sorriso formou-se em sua face ao sentir um perfume, ao sentir o perfume de seu anjo. Não abriu os olhos, ficou parado, extasiado com a fé que se renovava em seu peito ao ouvir o som dos passos dela pelo corredor da igreja, caminhando lentamente até o confessionário, ouviu, ainda de olhos fechados, a pesada cortina que servia de porta ao confessionário ser puxada e solta, indicando que ela já entrara, que ela estava a sua espera.

Levantou-se e ainda de olhos fechados, orou – Obrigada, Senhor!
Foi então feliz para o confessionário, respirando devagar, absorvendo o perfume que parecia colorir o ar ao seu redor. Entrou e sentou em silencio no escuro.

- Me perdoe padre, eu pequei.
- Você demorou – Davi não conseguiu impedir que seu tom soasse magoado – Temi que não viesse.
- Quase não vim... Mas não podia deixar de me despedir de você.
- Despedir... ? Vo-você vai embora?
- Sim – ela respondeu suavemente – Mas gostaria de lhe deixar um presente, algo para que você se lembre de mim.
- Sempre me lembrarei de você.
Ela ficou em silencio, e ele pode ver pela entretela apesar dela estar com a face abaixada que seu rosto estava triste, indeciso, ela parecia debater mentalmente.
- O que te aflige? - Davi perguntou.
- Você pode sair? – ela perguntou – Está tão quente hoje, podíamos passear lá fora? Sei que não é o normal, mas...
- Sim – ele respondeu apressado, preocupado com a agitação na voz dela, sempre tão calma – Não há problema em sairmos. – se animou intimamente, ele iria vê-la, pela primeira vez, ver seu rosto sem a barreira do capuz ou da entretela, surpreendeu-se de seu tom soar calmo.

Davi a viu se levantar e sair pela porta do confessionário, levantou-se e saiu, se apressando em segui-la pelo corredor ate a porta lateral que dava para os jardins, notou enquanto caminhava que a igreja estava quase vazia, apenas 3 pessoas, todos ocupados com suas próprias orações, sequer ergueram os olhos à passagem dela e do padre.

Os dois caminharam devagar e em silencio pelo jardim da praça onde ficava a igreja ate um pequeno banco de madeira onde se sentaram, ela permanecia calada, seus olhos perdidos na paisagem noturna, Davi observou seu rosto iluminado pela luz da lua, ela era exatamente como ele imaginara, traços delicados como um anjo, bela como devia ser um anjo.

- Eu nasci em uma vila como esta – ela cortou o silencio suavemente, ainda olhando para longe – cresci freqüentando uma igreja como esta, eu e meus irmãos éramos muito felizes em nossa inocência e simplicidade – sua voz se abaixou, continuou quase sussurrando – Provavelmente, teria me casado com algum camponês de lá, teria formado uma família, e minha vida continuaria sendo simples, mas feliz.
- Se as coisas não sairão como você planejou, é por que os planos Dele para você eram diferentes
– Davi disse – devemos sempre tentar entender o que ele quer de nós e aceitar nossas missões.
- Talvez – ela virou o rosto e fixou os olhos em Davi – Você realmente crê nisso não é?
- Sim – Davi respondeu convicto – Acredito que tudo que acontece é pela intervenção Dele.
- Você tem sorte – ela continuou olhando para ele – Quando olho em seus olhos, vejo apenas certezas e paz – ela sussurrou – seus olhos não mudaram apesar de tudo o que você viu quando tinha apenas 3 anos.

Davi apenas olhou para ela sem entender, ela percebeu sua confusão e continuou – Penso que talvez você tenha esquecido o porquê de ter ido para o mosteiro ainda tão jovem. Perguntei de sua vida antes de ir para lá, diversas vezes, e nunca você mencionou o motivo – ela sorriu triste – O motivo fui eu.

- Eu não entendo..?! – Davi estava cada vez mais confuso, e agora, percebia algo no tom dela, algo que o incomodava. Então o sorriso na face dela se alargou, seus lábios se abriram e ele pode ver seus dentes muito brancos brilhando ao luar, pode ver suas presas.

E a memória daquela noite voltou a sua mente como um flash. Os estranhos invadindo a cidade, todos jovens, todos muito belos. Lembrou de pensar quando os viu - Belos como anjos - e então o pesadelo começara, eles perseguiram e mataram todos da pequena vila, lembrou-se dos gritos, do terror, do medo no rosto de sua mãe quando um deles a carregara para longe dele. Lembrou de ter fechado os olhos e orado por ajuda, e de sentir alguém lhe segurando e o mandando abrir os olhos, lembrou-se de ter obedecido, aterrorizado pelo medo, e de se ver encarando o mais belo rosto que já vira antes, um rosto de traços delicados e com cabelos dourados que o emolduravam, e o medo sumiu, e Davi se sentira seguro naqueles braços, a mulher então olhara fixamente em seus olhos por alguns momentos e sorrira lhe dizendo suavemente – Você tem sorte.

Davi se levantou abruptamente do banco de madeira, olhando para a jovem em choque, ela segurou sua mão, seu toque leve, mas firme, percebendo que ele estava prestes a sair correndo.

- Não tema meu jovem amigo – ela disse, e sua voz voltou a ser apenas um sussurro triste – Não pude lhe ferir naquela época, e ainda não posso fazê-lo agora.

Ele voltou a se sentar, devagar, inseguro do que fazer ou pensar, atordoado pelas memórias a tanto esquecidas, mas compelido pelo mesmo sentimento de segurança que sentira uma vez, há muito tempo atrás, um sentimento que o toque dela em sua mão lhe inspirava – O que é você?

- O que sou eu...? – ela respondeu, seus olhos perdidos no nada, como se falasse consigo mesma - Eu sou algo que não faz parte dos planos Dele... Sou algo interrompido, algo que não teve escolha de se tornar o que é – Seu tom de voz se tornando mais rápido e intenso - Algo que apesar do mal que causa, não é completo, pois se subjuga e se transtorna frente à fé que vê nos olhos de um pequeno garoto – seus olhos voltaram-se a ele - Algo incompleto por não poder ser totalmente mal, nem ter a opção do bem, algo que implora pelo esquecimento das memórias de uma vida para sempre perdida, mas que ao mesmo tempo se agarra a ela, visitando noite após noite alguém que consegue aquecer estas mesmas memórias – Ela suspirou, cansada pelas emoções conflitantes e continuou – Sou algo, meu tão doce e querido Davi, que mesmo sem saber explicar o motivo, esta aqui para salva-lo, novamente.

Dizendo isso, ela colocou as mãos em seus ombros, e olhando diretamente em seus olhos, de forma intensa e hipnótica, disse – Durma minha criança, comigo você estará sempre seguro.

Dois dias depois, Emanuelle entrou na sala da grande casa, as paredes iluminadas pelas velas davam um aspecto ainda mais quente ao lugar, a decoração do ambiente nunca fora muito de seu agrado, Henry era francês ate no seu gosto por moveis e optara por um estilo rococó exagerado, muito colorido que deixava um ar carregado, uma sensação de poluição visual. Mas ele adorava, e no fundo - ela pensou, olhando para o rapaz, confortavelmente sentado em uma poltrona de canto - combinava perfeitamente com ele

- Estamos no jornal de novo – Henry falou com um sorriso travesso ao vê-la entrando – Quero dizer, eu e os outros, já que você não quis nos honrar com sua presença – ele se levantou e estendeu o jornal para que ela visse a noticia.

“A pequena cidade de Santa Maria sofreu uma tragédia na ultima noite de quinta, apesar de não haver testemunhas, os policiais que investigam o caso alegam ter sido trabalho de uma gangue de bandidos, que invadiram e mataram todos os moradores, houve apenas um sobrevivente. O padre Davi Esteban que alega ter saído para caminhar pelos arredores e acabou adormecendo na floresta ao lado da cidade, quando acordou a tragédia já havia ocorrido e ele não viu nada.”

Ao lado da matéria estava à foto de um jovem padre, de cabelos encaracolados, pele dourada e olhar perplexo, embaixo da foto a legenda – Padre Esteban, disse não saber por que sobreviveu, mas crê em intervenções divinas

Ela terminou de ler e em silencio devolveu o jornal a Henry, virando de costas a ele, andou ate a janela aberta para a rua, e ficou olhando o movimento lá fora.

- Não sei por que nossas pequenas festas te incomodam tanto – ele continuou falando, interpretando o silencio dela como reprovação – E são tão raras também, só nos reunimos uma vez a cada 10 anos – ele suspirou e desistiu ao perceber que ela não entraria novamente naquela discussão, mudou o rumo da conversa - Estranho ele ter escapado, o tal padre, acho que estamos nos descuidando... Ele me parece conhecido, você não acha?

- Não – Emanuelle respondeu rápido - Nunca o vi antes

- Muito estranho mesmo – Henry continuou sem prestar atenção às reações de Emanuelle, perguntou olhando para a foto no jornal – E então, você acha que pode ter sido mesmo?
- Ter sido o que? – Emanuelle voltou-se na direção de Henry, encarando-o apreensiva.
- Intervenção divina? - ele riu sarcástico.
- Não – ela suspirou e voltou a olhar o movimento da rua pela janela, as pessoas passeando calmamente pela avenida arborizada, a noite tranqüila, todos alheios ao que vivia ali, ao mal que os observava - Não houve intervenção divina... Ele apenas... tem sorte.
by Peper


Um Vestido com Historia

Luana, mal podia acreditar que estava em Paris, fazendo compras para o seu enxoval de casamento. Foi um dos melhores presentes que ganhou do seu noivo Artur. Ela, a mãe Silvia, a irmã Luiza e a cunhada Fernanda, estavam em Paris a 6 dias procurando coisas para o enxoval, e estavam também vivendo algo que Artur denominava como “momento mulherzinha”. Fazendo compras, “batendo pernas” e claro, dando uma paquerada, mas nada que fosse comprometedor, não em Paris.

- Se achar um cara gato, e cheiroso, me fala que eu vou dar pra ele na rua mesmo. Disse Luiza, para risada geral das outras.
- Nem pensar! Eu tô bem mais desesperada, se achar passa pra min. Mas eu duvido muito viu... achar um cara de banho tomado... - Fernanda riu, e as outras acompanharam.
- Meninas que maldade! - disse Silvia - E que burrice, leva pro hotel, e dá um banhozinho antes, nossa que custa?! - risada geral das meninas.

Mas Luana não estava rindo, ela tinha acabado de avistar o que tanto vinha procurando todos esses dias, um brechó que vendesse vestidos de noiva antigos. Ela não sabia por que, mas a visão daquela loja, com aspecto tão chique, elegante, vidros brilhantes e bem iluminada, a disposição das peças na vitrine, os grandes chapéus, ostentava para Luana um ar de retro-clássico, que ela não podia sequer tirar os olhos da vitrine. Logo sua mãe, percebeu o que se passava.

- Não acredito Lua! Que idéia de girico!! Milhares de lojas chiquérrimas aqui, e você quer comprar seu vestido num brechó?! Quer um vestido velho?! Gente olha, ela tá paralisada, alguém dá um soco nela - disse aborrecida.
- É pra já mãe - E sem maiores cerimônias Luiza enfiou um belo soco no braço da irmã, fazendo Luana despertar rapidamente do pequeno devaneio, e virar irritada para irmã e a mãe.
- Luiza, pelo amor de Deus - Falou entre dentes, o soco tinha doido - Precisava ser tão radical?! Bastava um olá e eu olhava pra você!! E mãe, eu ouvi. Quero um vestido antigo sim, lindo, clássico, não essas coisas estilizadas de hoje tá. É o meu casamento, eu quero um vestido com historia!! - e também sem muita cerimônia, ou aviso, retribuiu o soco no braço da irmã.
- Aiii! Sua fraca! Nem doeu! - e começou a rir da irmã.
- Oi! Eu tô aqui, eu também quero dar socos, posso?! - disse Fernanda.
- Não ninguém pode, chega de socos – disse Silvia - Luiza, e Fernanda, se vocês quiserem trocar socos, deixem a Luana fora disso, em uma semana ela se casa, e não pode ficar toda roxa.
- Agora que você diz mãe?! Agora eu tô com o braço roxo. Muito Obrigada mesmo. - disse e já saiu andando em direção ao brechó, com a irmã e a cunhada rindo e a mãe atrás, fazendo melosos pedidos de desculpas.

Foi ao entrar na loja que tudo mudou, ou pelo menos para Luana, ela estava no paraíso. A loja era enorme por dentro, sendo que olhando de fora através da vitrine ela parecia muito menor. A loja era espaçosa e ricamente decorada, por onde se olhava viam-se chapeis, bolsas, sapatos, vestidos, casacos, todos belíssimos e provavelmente caros, mas que Luana sabia, e por isso gostava tanto, únicos.
Difícil num brechó achar duas peças iguais e em se tratando de vestidos antigos, de final de década, seria mais difícil ainda, mas Luana estava disposta a achar ali o seu vestido de noiva. Mas não foi só Luana que reparou na diferença da vitrine para o interior da loja.

- Meu deus! Alguém aqui fez um feitiço muito bom de ocultação ou alargamento. Do mesmo tipo que fizeram no St. Mungus. - Luiza disse isso com a maior naturalidade, para espanto geral dos presentes.
- O quê?! Ninguém aqui leu Harry Potter?! Ah fala serio! - E se empertigou como pode no alto dos seus 16 anos, mostrando toda sua cultura. Ou não.
Fernanda que tinha 17 anos, também ficou “de cara”, com o comentário da amiga, riu, mas concordou num tom menos Harrypotteriano.
- Ah num exagera vai Lulu. Menos Lulu, menos!! Riu da amiga. É que a loja é extensa, comprida, só isso, lá fora é estreitinho, parece menor, mas feitiço de alargamento foi triste Lulu.
- Sabe que eu não acho. Sua amiga Lulu, não é a primeira pessoa que diz isso. Realmente eu tive essa impressão quando entrei nela a primeira vez, há muitos anos. Achei enorme, por isso comprei, no entanto hoje eu acho que preciso de mais espaço. O que vocês acham de uma ampliação?!

E para surpresa das turistas a mulher falava português fluentemente, e mais surpresa ainda, por ser tão gentil, com as clientes, já que esse não é realmente o forte francês. Provavelmente a dona da loja, Luana pensou. Linda. Parecia saída de alguma historia medieval, ou de Howgrats, diria Luiza. Trajando um vestido verde, tomara-que-caia com mangas compridas que chegavam até os pulsos, o vestido era comprido até os pés, liso, somente com uma pequena pedraria incrustada no alto do decote, que Luana não sendo expert, juraria que eram esmeraldas de verdade. Uma bela mulher com 40, não mais, com os cabelos negros fabulosos, corpo perfeito, e olhos de um azul acinzentado, que deixaria qualquer gato com inveja.

- Ah! A senhora fala português! E fala fluente hein, poxa, quase uma semana aqui pensei que não ia encontrar nenhum brasileiro. Prazer meu nome é Luiza.
- Prazer Luiza, meu nome é Faith. Eu não sou brasileira, mas já morei alguns anos no Brasil, e vou sempre que posso visitar amigos. Por favor, me chame de só de Faith. E acho impossível você não ter encontrado nenhum brasileiro por aqui, é que você está de olho só nós franceses, não será isso?
- Certeza que ela só olha pros franceses! Eu ontem vi 3 brasileiros lá no hotel, todos meio velhos pra gente, mas eram brasileiros sim. - sentenciou Fernanda, com um sorriso de admiração para Faith.
- Viu Lu, deixa de ser implicante. Têm brasileiros em todo lugar. E para de incomodar a dona da loja. Por favor, senhora, desculpe minha filha. Só tem 16 anos, e a cabeça no mundo da lua...
- Ou em Howgrats - disse Fernanda, baixinho.
- Por favor, querida, só Faith, ainda me sinto muito nova, para esse pesado título de senhora. Sua filha é um encanto. Alias as três. E concordo com Luiza, quem fez o feitiço de alargamento, bem que poderia fazer de novo. Não acham?! Eu realmente preciso de mais espaço.
- Desculpa Faith, acho que você não precisa de nada. Essa loja é simplesmente perfeita. E o seu vestido é lindo. É de época? Ah desculpa meu nome é Luana. Eu sou a compradora aqui, estou procurando um vestido de noiva. Pode me ajudar?
- Prazer Luana, lindo nome, claro que posso te ajudar. Que bom que você gosta da loja, mas eu vou fazer uma reforma, preciso mesmo dar uma mudada no visual da loja, tem cara de coisa antiga não têm?
- Não!! - foi dito por três vozes distintas, Luana, Luiza e Fernanda, fizeram protestos veementes conta essa idéia, e encantaram Faith, fazendo declarações ao charme da loja e da dona.

Faith ficou encantada e conseguiu colocar a melhor cara de vergonha que conseguiu no rosto, e foi fazendo as honras da loja mostrando tudo às clientes, contando as historias de algumas peças. Fez as meninas rirem, com o porquê do vestido que usava. Tomou um banho de sopa, logo pela manhã, quando tentava deixar pronto seu almoço, e teve que trocar a calça jeans e a blusa Cucci, pela primeira peça que vira, o vestido antigo, que foi devolvido por uma cliente para ser lavado. Mas ela tinha gostado do aspecto que o vestido dava ao seu corpo, e decidiu que não devolveria mais o vestido a cliente, ficaria com ele e retornaria o dinheiro.

- Ah que bom ser dona do próprio negocio não? E ainda poder escolher as roupas mais maneiras - declarou Fernanda, no que Luiza concordou plenamente.
- Mais isso é raro, não se pode fazer isso sempre ou a loja vai a falência meninas. - e aproveitando a aproximação, mudou para um assunto mais interessante. - Mas vocês tem pouca diferença de idade entre vocês não?!
- Ah sim e não. Eu e Luana somos irmãs, ela tem 21 e eu 16. A Fernanda vai ser cunhada da Luana, mas ela é minha amiga, e tem 16 também.
- Não! Para com isso, tenho 17! Ela sempre tenta diminuir minha idade, que coisa. Só porque eu vou poder dirigir primeiro que ela.

E foi o começo de uma pequena briga adolescente. Distração suficiente para que Luana se afastasse e pudesse passar os olhos em todos os vestidos de noiva da loja, e para seu desgosto, nenhum era o que ela esperava. Mas logo Faith veio em seu auxilio.
- E você acha que eu deixo os vestidos mais bonitos expostos?! De jeito nenhum! São guardados a sete chaves. Os vestidos especiais, para pessoas especiais.
- Ah que ótimo! Vamos vê-los então!

Uma pena que Luana distraída, e ansiosa como estava não viu o brilho vermelho passando atrás daqueles olhos tão bonitos... Mas foi a deixa para Michaela entrar em ação. Como sempre o prato principal, era dela, mas não faz mal. Hoje as sobras eram maravilhosas. E Michaela não era do tipo que desperdiçava juventude quando via na sua frente, com tanta fartura.

- Ola meninas. Meu nome é Michaela, também sou dona dessa loja sabiam? Será que eu posso mostrar uns vestidos lindos para vocês? - E também falo português tolinhas, pensou.
- Ah, mas eu duvido muito que tenha algo aqui que eu possa usar. Não tô desmerecendo não - Luiza foi logo se justificando - Mas é que eu não sou chegada a retro, igual minha irmã.
- Eu tô procurando um vestido pro casamento. Na verdade eu já tenho um, mas queria algo diferente. Só não pode me deixar muito mais velha. O que me sugere Michaela? - Fernanda fez pose, e se fez de importante. Claro que naquela loja não havia nada que duas adolescentes quisessem usar. Mas nada que Michaela não pudesse providenciar...
- Então, eu tenho uns vestidos que são bem novos na verdade, trouxe de Londres, foram usados na locação de um filme. Ah meninas não se preocupem, é um filme recente. Não me lembro o nome, sei que foi baseado em um livro de sucesso na Inglaterra, e até na América. Um minuto que vou confirmar no meu livro. Sei que foram vestidos de baile, eu só não...

Nem conseguiu terminar a frase, e tinha duas adolescentes gritando histericamente sobre ela, olhando em todas as direções procurando os vestidos, que elas sabiam muito bem, terem sido usados no filme de Harry Potter – Bingo! - Pensou Michaela, as abelhinhas atraídas pelo mel. Claro que ela tinha ficado de olhos abertos e ouvidos mais ainda quando as visitantes entraram na loja, e acompanhou toda a conversa. Então sabia muito bem, o que suas duas abelhinhas gostariam de encontrar na loja.
Enquanto isso, Faith levava Luana, para o interior da loja, passando do caixa, descendo por uma escada de pedra em espiral, muito antiga. Luana pensou em seu pai, enquanto descia pela escada, para Antônio todas as casas na Europa tinham seus próprios calabouços, esconderijos secretos, escadas e paredes de pedras, saletas que se moviam, não pode deixar de rir com esse pensamento. Ainda sim, seu pai adorava a Europa e adoraria mais ainda descer por aquelas escadas tão adornadas. Ele faria comentários hilários, e provavelmente diria que Faith parecia uma bruxa ou uma vampira, mas mesmo assim, seu pai daria em cima de Faith, como ele dizia “ é mulher?, bonita? Vampira? Maluca? Não quero saber, quero co***” . E riu sozinha novamente.

- Agora fiquei curiosa Lua. O que é tão engraçado?
- Nha. Tô lembrando do meu pai. Ele adora coisas antigas tanto quando eu, mas ele prefere calabouços, castelos, essas coisas, ele é historiador. Lembrei que ele ia adorar essa escada, poxa ela não tem mais fim?! - riu novamente.
Foi com uma risada agradável, que Faith respondeu:
- Noventa degraus. Nem é tanto assim para uma construção antiga. Minha irmã Michaela, quando entrou aqui pela primeira vez, quase rolou escada a baixo. Ela detesta essa escada, falou que um dia vai botar um elevador no lugar, ou uma escada rolante! Que absurdo!

Continuaram descendo e rindo, mesmo depois da indignação de Luana quanto a destruir a escada, mas Faith a tranqüilizou e disse que a prefeitura tombou o imóvel, e que jamais deixariam que elas mudassem qualquer coisa na escada.
Chegaram num aposento grande com paredes de pedras que reluziam como se fossem grandes cristais azul-acinzentados. Mas o que chamava mais atenção era o formato, um pentágono. E em cada lado estava exposto um vestido de noiva, cada um mais elaborado e maravilhoso que o outro. E olhando pra eles, Luana nem reparou no formato da cúpula da sala, também em formato de pentágono, que se abria em uma grande clarabóia de onde pendia um cristal imenso, do tamanho de uma bola de basquete, que se fosse uma jóia, seria provavelmente a maior ônix existente na terra.

Também não reparou que a clarabóia se abria para o céu, mesmo elas estando metros abaixo da terra. E o cristal, não era sustentado por nenhum fio.
Mas o que concentrou a atenção de Luana foi um vestido a sua direita, branco-perolado, com mangas curtas, que deixavam os ombros e todo o peito a mostra e possuía pequenos cristais, que de perto ou de longe lembravam gotas, pequenas gotas de cristais. E foi nele que ela se viu, casada, dali a uma semana com seu noivo de 4 anos de namoro, e sabia que com ele seu casamento seria perfeito, tudo que ela imaginara para uma data tão importante.

- Faith, esse vestido, é perfeito. Eu nem quero saber quanto custa, é meu, vou levar. - disse com a mesma convicção do dia em que aceitou o pedido de casamento. Sabia que era o certo a fazer. Mesmo que estivesse abrindo mão de alguns futuros namorados, sabia que Arthur era o homem certo para ela, como sabia que discutir preço por aquele vestido era bobagem, já que ele estava no destino dela. Ela não teria vindo de tão longe para não acha-lo, e agora não estava disposta a abrir mão dele por ninharia.
- Ah Lua, querida, temos ai um pequeno entrave. Estes vestidos... todos eles, são relíquias, únicos. Esse que você gostou então é do período vitoriano, essas gotas que você está vendo, são diamantes de verdade, agora você imagina o preço deles...
- Diamantes?! Diamantes de verdade?! Nossa. - por essa Luana não esperava, e não acreditava. Demorou 6 meses procurando o vestido, faltando só uma semana para o casamento ela acha o vestido perfeito e em menos de um minuto vê a chance de usa-lo indo para o ralo.
- Calma, nem tudo está perdido, nós alugamos o vestido claro, pelo preço de um carro popular, mas alugamos. Só temos algumas regras de uso, e transporte. Tenho certeza que você vai fazer o acordo sem problemas.

Finalmente, Luana pôde respirar, tudo daria dar certo no fim. Ok. Um carro popular, ela preferia dirigir e não vestir um, mas era seu casamento, e só casaria uma vez, e teria quantos carros quisesse por toda a vida, já estava mais que disposta a se desfazer do seu carro importado em nome do vestido. E com pressa de assinar qualquer acordo que fosse para levá-lo, e claro, traze-lo de volta com segurança. Não era todo dia que um vestido inteiro feito com diamantes, ficava viajando de um continente para outro.

- É simples. - começou Faith a explicar. - Primeiro você terá que transporta-lo nessa caixa. Você vai experimentá-lo agora, o vestido volta para caixa, e você só tira de novo na hora que for usar. Desculpa mas o vestido é muito antigo, e para total conservação dele isso é realmente necessário. Até porque tenho certeza, você vai querer ficar com ele o máximo que puder durante a festa, não é?!
- Eu já ia perguntar isso, quanto tempo eu posso ficar com ele?
- Não quero te fazer desistir, logo agora que você achou seu vestido perfeito. Mas no máximo, 3 horas com ele. O que você me diz?
- Perfeito, assim eu uso outro vestido também. Isso não é problema. E o envio de volta?
- Não se preocupe, a transportadora que nós contrataremos buscará o vestido no dia seguinte ao seu casamento, logo pela manhã. Só não pode haver atrasos no envio de volta, temos que acondiciona-lo novamente nessa sala, que é refrigerada para protegê-lo. E todos os vestidos aqui seguem a mesma regra.
- Então, tudo certo, assinamos o contrato agora? - perguntou a noiva vitoriosa.

Luana assinou seu contrato, ela achou engraçado o papel antigo, assinar com uma pena, mas tudo para ela fazia parte do charme da loja, e do vestido, que era realmente uma relíquia. Na parte de cima da loja, sua irmã e sua cunhada assinavam idênticos contratos para poderem levar seus vestidos alugados. No entanto, ela achou engraçado que elas também só pudessem passar parte da festa com os vestidos, que também teriam que ser entregues junto com o seu, na manhã seguinte ao casamento. Luana não via motivos para tanto, já que os vestidos eram quase novos, e sem nenhum diamante. Mas logo Michaela tratou de explicar.

- Simples! Queremos que esses vestidos durem tanto quanto o seu. Muitos anos. Assim varias pessoas poderão usa-los. Para conservarmos um vestido por décadas quanto antes começarmos a cuidar do seu aspecto e uso, melhor, não acha?
- Claro que sim!! Foi a Mione que usou o meu! Tem que durar pra sempre! - Luiza quase gritou a frase, estava tão feliz. E Fernanda fez coro. As duas mal cabiam de felicidade, e não viam a hora de usar os vestidos e ver os flashes voltados para elas.

Silvia estava tranqüila, gastara muito mais que o esperado, mas ver as meninas alegres a deixava satisfeita. Achou exagerado o cuidado com os vestidos, principalmente os novos, mas deixou para lá. Se elas estavam satisfeitas, por ela tudo bem. Achava a escolha de Luana muito boa, um vestido com diamantes, a filha se superou no bom gosto, ela tinha que admitir. - Puxou ao pai - pensou sorrindo. A viagem enfim tinha sido proveitosa, já que vieram com intento de comprar o vestido de noiva. O noivo foi quem bancou a viagem, já meio desesperado de medo de que a noiva desistisse de casar pela falta do vestido. Já tinha visto a filha desistir de sair, por falta de roupa, ou falta de opção de roupa na verdade. Não tinha duvidas de que a filha cancelaria o casamento até achar o vestido certo. Meu genro é esperto - Silvia pensou - ainda bem. Porque manhosa como o pai dela era, provavelmente conseguiria tudo dele fácil sempre.

Ela estava no balcão, olhando furtivamente a loja, seu vestido já estava comprado a tempos então podia olhar a loja ou as donas da loja, sem o entusiasmo que as garotas mais jovens olhavam tudo ali. Foi quando viu Michaela, olhando para Fernanda e Luiza, como se elas fossem um doce na vitrine. E também notou os olhos castanho-claros mudando para amarelo vivo, em uma velocidade incrível, os olhos mudavam de cor muito rápido mas Silvia acompanhava totalmente consciente disso, Michaela também molhava os lábios quando falava, sempre que fazia isso, era de uma maneira sedutora, até mesmo sexual e também parecia com sede, ou passava essa sensação, Silvia não sabia dizer, ou não sabia explicar, não tinha certeza. Talvez ela tivesse algum problema, alguma doença, poderia ser problema no sangue, Silvia resolveu que não queria saber da resposta e logo tratou de tocar as meninas fora dali o mais rápido possível.
Tirar as meninas dali pareceu uma missão de Hércules. Grudadas e vidradas em tudo que Faith e Michaela falavam as garotas não se davam conta da hora adiantada, nem que deveriam nesse momento estar no hotel adiantando as malas para a viagem de volta. Foi também quando Silvia reparou em Faith, perfeita no seu modo de andar, como uma mulher que conquistou o mundo com seu corpo, mas seus pés... Eram de uma senhora de 80 anos. Era provável que elas fossem irmãs, e tivessem problemas de saúde. Mas Silvia estava pensando que problemas fariam uma pele ficar com aparência tão envelhecida e unhas com aspecto de garras. Resolveu tirar Luiza e Fernanda da loja, antes de qualquer coisa, cortado as despedidas longas, e as promessas de retorno. Depois de colocar as duas para fora da loja, já dentro de um táxi, voltou a loja e ouviu Faith e Luana conversando.

- Lua, me promete que depois você manda uma foto do seu casamento? - Perguntou a mais nova amiga de Luana, Faith.
- Não mando uma foto não, venho pessoalmente com meu marido, te mostrar todo o álbum de fotos. Posso?!
- Claro que sim, querida! Será muito bem vinda! - disse abraçando e se despedindo de Luana.
No que Silvia, muito sem cerimônia, agarrou o braço da filha, gritou até logo por cima do ombro e foi embora para jogar Luana dentro do táxi e pedir que o motorista corresse o mais que pudesse para o hotel, pois tinham muitas coisas para organizar, mas não sem perguntar para filha.
- Luana, quando foi que você contou o seu apelido pra aquela mulher?! Você só deixa que eu te chame assim, como abriu tão rápido seu apelido pra ela?
- Mãe eu não falei nada, ela deve ter ouvido você me chamar de Lua, qual é!? Você me chama sempre assim. Não vejo problema.
- Eu me mudo pra Angola, se em algum momento lá dentro daquela loja te chamei de Lua. E aviso logo pra vocês três. Nunca mais, nas suas vidas, vocês vão botar os pés nessa loja!! Os vestidos serão devolvidos com certeza, mas vocês não voltam aqui de jeito nenhum! Isso eu posso garantir.
O caminho para o hotel, foi seguido de protestos. Enquanto isso, Faith voltava a sua atenção para a organização da loja.

- Ai ai, porque as filhas nunca escutam as mães? Hein mana, o que você acha?
- Eu te digo Faith, a velhota percebeu alguma coisa, ou então deve ter achado alguma coisa estranha, mas enfim, eu aposto minha mão direita com você, que nada no mundo vai fazer aquelas garotas desistirem dos vestidos, pode apostar.
- Chega de apostar sua mão Micha, você acha que é fácil fazer aquela poção com rins humanos e garras de Harpia para fazer seu braço crescer de novo?! Esqueça. Eu tenho certeza que elas usarão os vestidos. Além do mais, esse perfume que você fez é excelente, tenho certeza que o perfume nos vestidos é irresistível.
- Eu bem podia ter colocado o perfume em algum vestido Cucci por aqui, e pegávamos a velhota também.
-Micha! e você quer ganhar algumas rugas, Mon Chéri? Além do que não é o perfume, é o vestido! Você sabe que não tínhamos pronto nenhum vestido de marca. Os vestidos farão o trabalho lindamente. E no final da festa, quando tirarem os vestidos... Suas almas ficaram presas para sempre neles, e serão embarcados de volta logo pela manhã. Ninguém vai desconfiar, porque elas ficaram bem até que os vestidos cheguem até nós...
- E quando chegarem começa a festa das Irmãs Drusth!! Ah ainda temos que esperar uma semana, que triste!
- Isso não nos impede de começarmos os preparativos agora... veja quem entrou no loja, dois rapazes jovens e lindos. Vamos convidá-los para nossa festa?! - Riram-se as duas irmãs bruxas.
by : Rain


Amado Elrond

Seu plano de fuga, me parece impossível, é insensato!! Querido, perdemos a razão, o juízo! Não podemos simplesmente virar as costas para nossa cultura, tradição, tudo e porque?! Seremos amaldiçoados para sempre! Expulsos! Jamais poderemos voltar, e nosso primeiro filho, se tivermos filhos, você sabe que ele carregara um grande fardo nas costas, uma pesada missão?! E se nossos pais conseguirem nos trazer de volta, ficaremos sozinhos, separados e infelizes para sempre.
Oh querido, não sei o que fazer me sinto tão confusa e perdida. Abençôo e amaldiçôo sempre o momento em que nos conhecemos, aquele momento traçou nosso destino para sempre! Tenho a sensação de que o destino brincou com nossos corações no momento que fez com que um Elfo, salvasse a vida de uma Bruxa.
Preciso vê-lo logo, saudades.
Sua Karah

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Amada Karah

A saudade me aperta o peito, mas suas palavras fazem meu coração chorar. Como você acha que estamos melhor agora, longe, sofrendo, do que estaremos assim, da mesma maneira se os nossos nos trouxeram de volta da nossa loucura?! Tentamos! Tentaremos Karah ou não valerá a pena viver, não sem ao menos ter tentado. Não teremos filhos, ou cuidaremos para que nossa primeira filha seja uma menina e fuja desse destino insólito. Porém meu amor precisamos antes de tudo fugir. Nossos encontros, eu sinto, estão sendo vigiados de perto, e concordo quando você diz que o destino nos fez uma pilhéria, meu pai me disse que sentiu uma grande mudança vinda em minha direção, no meu futuro, e não pude contrariá-lo, já que eu mesmo sinto que meu futuro está longe da minha terra, da minha gente, e que ele é junto com você, onde quer que seja. Então, essa é a última carta que lhe escrevo, pois nosso próximo encontro será o último, antes de nossa fuga.
Encontraremos-nos em um lugar diferente dessa vez, na Terra dos Encantados. Não se preocupe, sei que você não pode entrar lá se não pela mão de um elfo, então fique na estrada secundaria à Terra das Eras, que buscarei você lá.
E dá próxima vez, partiremos para sempre direto da Terra dos Encantados, ou esse encontro, será também um adeus.

Do seu amado Elrond

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Os enamorados se encontraram, marcaram planos para a fuga, para o futuro. Decidiram naquela noite, esperar por algum tempo, ou talvez muitos anos, até que achassem um jeito de contornar o nascimento de um filho, que levaria consigo o peso de duas raças.
Imaginaram um futuro maravilhoso, mesmo que numa terra estranha, uma terra humana, e se alegraram com as pequenas dificuldades, e grandes desafios que teriam pela frente, sempre embalados pela certeza de que o fariam juntos. E tinham em mente, que o amor venceria tudo.
E naquela noite maravilhosa, onde tudo era possível, e permitido, eles se amaram pela primeira vez. E tiveram a certeza de um futuro juntos, já que jamais poderiam encontrar felicidade que não fosse nos braços um do outro. E naquela mesma noite, marcaram o fim, ou o começo de uma nova era paras suas raças, gerando um filho, fruto de um grande amor, marcado por uma grande maldição.

By Rain


O sol nascera há pouco tempo. O vento ainda trazia aqueles fios de ar gelado em meio a brisa morna, o céu claro e sem nuvens começava a se tingir, o fundo azul opaco aos poucos ganhando cores rosadas e quentes, brilhantes, anunciando a chegada do novo dia. O jovem casal estivera andando pela praia, seus pés na faixa de água rasa do mar, e agora se dirigiam a areia seca. O jovem Mauricio estendeu a toalha na areia e a moça sentou-se nela, de frente para o mar, seu rosto sereno observando a imensidão de água. Ele passou a mão pela barriga saliente da jovem mulher ao seu lado, - quase sete meses – e sentiu uma dor quase física, excesso de amor, de medo pelo futuro, pelos 2 seres ao seu lado que agora dependiam dele e por quem ele faria tudo que estivesse ao seu alcance para manter felizes e em segurança, deixou seus olhos seguirem a direção dos olhos dela e buscou paz e certezas nas mudanças eternas e imutáveis do mar.

Mauricio olhou para o chão aos seus pés, não havia sombra, o sol estava a pino, sua luz forte e quente selando sua presença no agora. As crianças montavam um castelo de areia, protegidas na sombra do guarda-sol, suas peles esbranquiçadas pelo creme protetor que a mãe lambuzara em exagero de zelo por suas crias. A garotinha ergueu seus olhos dourados para ele, uma expressão de adoração tangível em sua inocente expressão, como deveria ser. O garoto, com ares de expert, separava com a pá o buraco do fosso do castelo, sua expressão concentrada lembrou ao pai de si mesmo, sentiu a mão de sua esposa se enfiar pela sua, seus olhos se cruzaram tranqüilos, felizes. Olhou novamente para seus filhos e viu neles seus próprios gestos, seu rosto e o da esposa, misturados, melhorados, recriados. Sentiu-se inflar de orgulho, de amor, de um calor que vinha de dentro, harmonizando-se com o calor que o sol do meio do dia infligia em sua pele.

A bola bateu em sua cadeira com força – Joga ai, Tio Mauricio! – gritou Maisena, parado a uma certa distancia, um sorriso enorme em seu rosto chocolate, reunido com a turma de amigos de seu filho que jogavam a “pelada da tarde”. Soltou o jornal que lia e jogou a bola de volta ao garoto, então caminhou em direção as suas garotas – a esposa, a filha e a nora – que brincavam com Mauricinho Neto, o garoto rechonchudo e sorridente pulava as ondas, revezando entre as mãos das mulheres que babavam em cima dele. Sentiu a água do mar atingir seus pés ao se aproximar do grupo, estava morna como sempre ficava no final de dias ensolarados. Olhou nostálgico para sua família, e antecipou a saudades que sentiria quando as férias acabassem; seu filho voltaria para a cidade que agora vivia, e sua filha estava de viagem marcada para estudar no exterior. Para onde foram aqueles dias longos e tranqüilos, onde o futuro parecia tão distante? Tanta vida em tão pouco tempo, uma gaivota gritou por perto, asas estendidas voando em direção ao mar, voando para longe e ainda mais distante.

As luzes dos navios brilhavam a distancia na noite escura, propagando-se nas ondas como estrelas em movimento. Não havia lua está noite e a brisa fria que chagava do mar trazia um que de mistério, para os outros talvez – pensou Mauricio – não mais para mim. Esta areia, esses sons, esses cheiros, me acompanharam sempre, fizeram parte de minha vida, de minha família, não há mistérios aqui, não para mim. Sentou-se na areia, devagar, seus ossos doíam mais que o normal naquela noite, deixou a areia moldar-se por baixo de suas pernas, como uma cama, aconchegante, a praia sempre lhe fora receptiva, sempre lhe consolara e acalmara, compartilhara com ele seus bons e maus momentos, seus dias de sol e também seus dias escuros, de chuva. Suas lembranças estavam firmemente entrelaçadas a ela, era como um membro, uma parte de seu próprio corpo. Deitou-se na areia, deixou sua mente vagar por lembranças da esposa, perdida a alguns anos, dos filhos agora distantes, dos netos cuja geração ele não entendia, deixou-se mergulhar nas saudades e sentiu-se satisfeito, podia agora no final do dia perceber tão claramente, o quão farta fora sua vida.

Lembrou de quando era criança, da aula de biologia, da teoria que dizia que a vida nasceu no mar. Fazia sentido na época para o garoto que passava as tardes jogando pelada na areia, que crescera tão perto do mar – pensou enquanto se levantava devagar – ainda faz sentido agora – sorriu para a escuridão do oceano, caminhando em direção a água negra – que minha próxima vida também comece em você.
By Peper


Ela apertou o botão da régua de energia, desligando o CPU, exatamente no momento em que o ponteiro dos minutos do relógio movia-se para o cinco, 20:05 horas, repetiu então sua pequena rotina diária, pegou as chaves do espaço embaixo da mesa, o celular embaixo do monitor, enfiou o isqueiro dentro do maço de cigarros pela metade, levantou e pegou a bolsa pendurada no cabide atrás do armário, pegou o cadeado na gaveta, andou até a porta dupla de vidro, encaixou as chaves, apagou as luzes, puxou as folhas da porta, apertou com força a fechadura, a chave continuava enroscando, andou até o carro, tirou-o da garagem, embicando na rua, parou, desceu, fechou as grades do escritório, colocou o cadeado, voltou ao carro, esperou a rua ficar livre e saiu com o carro.
Começou a dirigir pelo caminho que fazia todos os dias para sua casa, automaticamente, como fazia sua pequena rotina de fechamento do escritório, sem ter que pensar, e deixou a mente vagar, o que também fazia parte da rotina, pensamentos desconexos passando por sua mente, o que ia passar na TV aquela noite, precisava separar as contas do mês e ir ao banco paga-las, a luz viera mais alta que o normal este mês, precisava chamar a atenção de Joana, sua filha, ela nunca apagava as luzes, tinha que ir a faculdade qualquer dia na próxima semana, buscar seu certificado de conclusão de curso para fazer a matricula da pós graduação, era a ultima semana de matricula.
O símbolo colorido de combustível acendeu no painel do carro, olhou para o ponteiro, chegando na reserva, ainda dava para mais um dia, estava chovendo, abasteceria amanha, não estava com pressa, não tinha nada para fazer em casa realmente, nada de importante, mas podia abastecer depois, olhou para a rua molhada ao entrar na avenida dupla que seguia praticamente inteira no caminho de sua casa.
Deslumbrante – a palavra surgiu em sua mente, o céu lembrava um túnel, nuvens de um tom cinza escuro cobriam praticamente todo o céu, a não ser por uma pequena faixa na linha do horizonte, onde podia-se vislumbrar o fim do dia, tons de vermelho, rosa, laranja colorindo de forma aleatória um céu azul turquesa, as cores se sobressaiam mais que o normal colocadas assim ao lado do cinza escuro que tingia todo o resto do céu, a chuva fraca molhando tudo, e as luzes dos carros indo e vindo, se sentiu dentro de uma pintura de Thomas Kinkade, cercada de cores e luzes que nem ao certo sabia de onde vinham
Estava mais movimentada que o normal, a avenida dupla, - é por causa da chuva – se respondeu mentalmente a muda pergunta, ninguém quer andar e se molhar quando pode usar o conforto dos carros, viu pela beira dos olhos uma criança abrir o portão de uma casa um pouco a frente, viu meio sem ver, enquanto o carro avançava em meio a chuva e as cores, que a criança deixou o portão aberto e que já andava pela calçada apressada pela chuva, e o cão saiu pelo portão esquecido aberto, correu diretamente para a rua em frente ao carro.
Foi muito rápido, e ao mesmo tempo, em câmera lenta, ela tentou frear o carro, mas o chão molhado não o deixou parar, sentiu o movimento de derrapagem antes que seu cérebro entendesse o que estava acontecendo, e o carro deslizando para a esquerda, para a pista ao lado, a traseira primeiro, e a luz branca batendo em seu rosto, a luz do farol do caminhão que vinha na outra pista, direto em sua direção.
Preparou-se para o tal filme, aquele com a retrospectiva de sua vida, o que será que veria – o que teria a importância certa, a relevância necessária para se ver como ultima coisa de sua vida, sentiu-se mais curiosa que assustada, mas o filme não veio, apenas os mesmos pensamentos desconexos de antes. Não precisaria abastecer o carro amanha afinal, não faria o curso de pós-graduação que havia planejado, não iria assistir o filme que passaria na tv e que já havia assistido antes, não faria nada, nenhum grande sonho se realizaria, nenhum grande amor digno de ser impresso em forma de romance, nada, nem pequeno, nem grandioso, apenas o inexorável fim, que grande piada.
Mas o movimento do carro mudou, sentiu-o guinar novamente a direita, a luz dos faróis do caminhão mudando de foco, saindo de cima de seus olhos, as belas e brilhantes luzes de Kinkade tornando-se visíveis de novo, e o caminhão passou a centímetros pela lateral do carro – 10 centímetros talvez – pensou e duvidou – não, no máximo 5, muito, muito perto – voltou a sentir seu corpo, como se ele não estivesse lá a apenas alguns segundos atrás, viu sua mão na direção do veiculo, ela havia virado a direção a direita, olhou de novo, sua própria mão lhe parecia algo alienígena, quando foi que seu cérebro dera esta ordem a ela, examinou-o rapidamente, e não achou a ordem, - instinto – sim, se isso não fosse instinto de sobrevivência, nada mais seria.
Sua garganta ardeu quando o ar voltou a passar por ela, se sentiu cansada e tremula, mas seu pé ainda estava no acelerador, e o carro ainda andava, agora de volta a sua própria pista, olhou pelas janelas do carro ao redor, o mundo parecia normal, ninguém percebera seu fim ali? Ninguém notara sua quase morte, estúpida e tola, trágica em sua própria simplicidade, um portão esquecido aberto, um cão atravessando a rua na hora errada, um caminhão cruzando a pista contraria em um momento inoportuno, apenas isso, inoportuno.
Nada, o mundo estava igual, alheio ao seu pequeno drama, seu pequeno acaso na passagem do tempo, talvez fosse apenas isso, nossas vidas, pequenos acasos perdidos em todo aquele caos generalizado, puxou o ar com mais força, era melhor passar na padaria, não estava com vontade de fazer janta hoje, como era mesmo o nome do filme que ia passar na tv, podia pegar pipoca e coca na padaria também, o que será que houve com o cão afinal?
By Peper

"Penso, logo existo"

Será?

Como alguem pode provar que voce pensa se voce nao falar? nao escrever? nao oficializar a coisa?

Bom.. aqui nós pensamos, e escrevemos, e oficializamos.. nem sempre a "coisa" será digna de leitura, ou mesmo digna do processo mental que ela oficializa, mas pelo menos estamos provando a máxima acima, e ter boas intenções já é alguma coisa, certo?

"de boas intençoes o inferno está cheio"

ok, ok, já que vamos provar uma maxima, porque nao provar duas.

vai ai nossos contos, criticas, resenhas, ou qualquer outra coisa que saia do "pensar" com boas intençoes e diretamente do inferno

divirtam-se

“Opostos”

Ele era mau, ela era boa. Simples assim, ele era toda a força do mau, era movido por uma energia maligna, uma nevoa sempre densa, escura, fria, e carregada de ódio. Ela era um ser de luz, tocada pela energia do sol, do amor, espalhava a bondade, a cura era o seu dom. E assim eles eram antagonistas naturais, como assim determinou o destino.
Mas o destino brincou, errou, se descuidou, esqueceu o principal sentimento que faz a humanidade singular: o amor. E eles se amavam. Isso era o fim.
Como podiam o bem e o mal coexistir, tão pacificamente?! Pois existiam, escondidos, clandestinos, sozinhos. Mas eles nunca estariam sozinhos, lutariam até o fim pelo seu amor, mesmo que para isso, vez ou outra, perdoassem as faltas um do outro. Esses perdões, esse descaso que os dois faziam em relação ao seu trabalho, estava chamando muita atenção, dos dois lados do jogo. Alguém tinha que tomar uma providência, e rápido, antes que os dois magos perdessem o controle do jogo, e a balança, pendesse para um lado. E nenhum dos dois, mesmo amantes, podia deixar que isso acontecesse.
Já passava da meia-noite quando se encontraram na antiga cabana, no alto da colina, era um clichê, mas era atrás de uma gruta, entre árvores, difícil acesso a noite, a floresta se adensava nessa parte. Para alguém sem magia, era complicado, não para dois magos. Lyra chegou primeiro, rindo, esse era o seu jeito, a hora mais feliz para ela, era a hora em que caia nos braços do seu amado, mesmo que seu amado fosse seu maior inimigo, mesmo ela tendo total consciência, de que tudo estava errado, não era assim que devia ser, ela deveria amar um mago como ela, das forças do bem, ou mesmo um homem comum, quem poderia amar seu inimigo?! Mas ela amava, e tinha certeza que era totalmente correspondida. Ela fez um aceno displicente com as mãos, e a pequena cabana se acendeu cheia de vida, logo um fogo brando, pulava na lareira, e o cheiro do vinho, e das cobertas e lençóis limpos, cobria todo o ambiente. Ele está atrasado, ela pensou. Mas será o tempo de preparar uma pequena refeição. Sim ela queria agradar o seu amado, e queria que ele chegasse logo.
Darak estava com problemas pra sair do castelo, parece que nessa noite em especial, todos tinham tirado motivos torpes, pra mantê-lo acordado, e mal-humorado, pela noite inteira, porque todos sabiam que o mago negro se recolhia cedo. Mas os problemas hoje pareciam não estar dispostos a lhe darem trégua para ir vê-la. Eu preciso tanto vê-la. Não podia esperar nem mais um minuto com essas delongas, tinha que se apressar, provavelmente Lyra já estava a sua espera. Já estou indo meu amor. Sem grandes desculpas, anunciou que estava a se recolher, pois naquela noite deixou de invocar alguns feitiços, e ainda tinha até o nascer do sol, para fazê-los, ou teria problemas com aquela pomba branca, logo pela manhã. Pomba branca, era como ele se referia a Lyra, sua inimiga, sempre que podia desmerecer sua magia. No entanto ele agora só queria abraçar o seu amor.
Saindo rápido pela lateral secreta do castelo, ele nem percebeu a movimentação atrás dele. Uma figura alta, encapuzada, estava seguindo o mago negro. Ele na sua pressa, só se deu conta, quando uma mão branca, com dedos compridos, pálidos e unhas grandes, negras, tocou seu braço e disse:
- Muito boas noites, mago Dakar, vejo que está com pressa. Não quero lhe atrasar ainda mais essa noite. Será que posso roubar, talvez 5 minutos do seu precioso tempo?
Era possível, que o mago negro, o senhor do mal, sentisse medo?! Ele descobriu que sim, naquele momento, pois aquela mulher, de um aspecto fantástico, mas sobrenatural, com uma voz rouca, sensual, e de olhos vermelhos, vermelho sangue, não poderia naquele momento, roubar mais nada dele, porque nesse momento ela já tinha roubado seu fôlego. Porque ele estava com medo? E porque ele teve a certeza que ela estava ali para lhe falar de Lyra. Ele teve um sobressalto, pensou em Lyra, na cabana esperando por ele, talvez até fazendo seu prato favorito, sorrindo doce como sempre. Ele a amava, e tinha certeza que essa mulher, ou criatura, ele não sabia definir, estava ali para acabar com essa festa dos magos amantes, que já durava 2 anos. Mas quando falou, foi firme:
- Boas noites senhora, se me conhece, sabe que quando encerro as atividades, não costumo voltar a falar com ninguém, e me dedico exclusivamente a minha mágica. Mas estou lhe ouvindo agora, e gostaria de saber, qual assunto não pode esperar até amanhã?! - Ele quase se arrependeu da sua brincadeira, e ele sabia qual era o assunto, e estava com muito medo da resposta.
- Realmente não volta a falar com ninguém... que interessante! Esse ninguém envolve uma pomba branca?! Como é mesmo o nome dela meu senhor...?!
Seria um jogo interessante, se ele não estivesse com um temor tão grande por essa mulher, ela sabia, e não estava com brincadeiras, nem rodeios, foi direta. E o descaso proposital quando ela disse meu senhor, não foi nada de bom, teve certeza de que ela jamais o consideraria como senhor de qualquer coisa que fosse, e pelo que ela sabia, provavelmente não voltaria a ser senhor de mais nada...
Resolveu mudar de atitude, postura. Se iria enfrentar um adversário, não daria o gosto do triunfo tão fácil.
- Muito bem, vejo que está muito bem informada. Mas não me parece claro seu intento. Poderia ser mais direta, ou especifica, porque veja bem, não tenho tempo.
- Ah não se preocupe mago Dakar, agora você tem todo o tempo do mundo, as noites livres para praticar a sua magia, sem pressa.
- O que?! Dakar exigiu.
- Tempo. É o que não lhe falta a partir de agora mago. E isso foi tudo que o senhor perdeu essa noite. Atendendo aos seus discípulos, súditos, ah sim, obrigações de um Rei! Só há um porém, você não é o rei, não é mestre. Não é mestre de nada, muito pelo contrário, você serve ao verdadeiro mestre. E foi a pedido do mestre, do meu mestre, que eu vim aqui hoje, lembrá-lo disso. Você acaba de ser perdoado, o mestre foi até gentil com você, eu teria feito mais... No entanto, lembre-se mago, você é servo, e não há uma segunda chance para você, agarre essa. Ou ainda existe mais alguma cabana perdida por ai?!
A resposta ficou no ar, e Dakar já corria desabalado em direção a cabana. Ele ainda teria tempo de ver as chamas que subiam a altura dos céus, como se o próprio inferno, estivesse queimando a montanha.
E a dor que tomou conta dele, quando teve aquela visão, aquela certeza de que nunca mais veria sua amada de novo... Então ali... tudo perdeu a razão. Ele não sabia quem era. Como tudo aconteceu tão depressa, que seu mundo foi tirado do eixo, e ele estava agora sozinho, sem chão, como jamais esteve em toda a sua vida.
Então ele se lembrou do dia que fez o pacto com as trevas, lembrou do abandono, do medo que sentia naquela floresta, do medo dos seus inimigos, do seu pai e do seu mestre. Naquele dia ele estava pronto, a deixar tudo de bom que aprendeu, para ser um renegado, um mestre da arte obscura, indo contra tudo que ele aprendeu durante a vida, disposto a mudar sua vida, a aceitar uma nova missão de vida. Ele sofreu, mais venceu. Sobreviveu. E para quê?!
Toda a sua vida, após se transformar no mago negro, foi de dor, de desgraça, de sofrimento. Que ele fazia aos outros, e agora simplesmente, como ele bem sabia, a lei do karma fazia seu trabalho. Ele que acabara com tantos amores, destruía tantos casais, tinha perdido seu par, e para quê?! Pra descobrir que sozinhos, não somos nada. E que tudo que se faz, se recebe na mesma moeda.
Sentindo uma dor tão grande no peito, por ele, por sua amada, por todos aqueles que padeceram pelas suas mãos. Ele correu em direção ao abismo.
- Lyra, você era a melhor parte de min. Sem você, não posso ser inteiro. Até breve meu amor.

by Rain