Ele atravessou o longo corredor interno, ouvindo os próprios passos ecoarem pela gigantesca nave oval, seus olhos percorreram os belíssimos mosaicos das longas janelas que circundavam toda a antiga igreja. Os adereços, o teto alto e ricamente decorado, os bancos de madeira envernizada; não cansava de admirar a arte e a fé impressa em toda beleza ao seu redor.

Fechou a grande porta principal e abriu as duas portas laterais menores. Era orgulho de toda a congregação o fato da Igreja de Santa Maria manter suas portas abertas o tempo todo àqueles que necessitavam do conforto da casa do Senhor.

Recostou-se no batente da porta e ficou observando as sombras se alongarem sobre a cidade enquanto o sol sumia no horizonte e o céu tingia-se de tons azuis dourados até marinhos.

- Logo a noite chegara – pensou Davi – E ela também...

Um pequeno sorriso surgindo em sua face jovem, seu rosto ainda conservava a inocência de uma criança, apesar de seus 23 anos, e em seus enormes olhos negros, pairava sempre uma expressão de infinita admiração perante o mundo.

Ainda criança saíra dos seios de sua pequena família camponesa e fora viver no mosteiro próximo, nunca mais voltara para casa; sempre, lhe parecia agora, vivera dentro de igrejas, elas eram seu lar, nelas se sentia em casa. E logo, faria um ano que prestara os votos e se tornara um padre, - Não era mais o pequeno Davi – pensou - Era agora o padre Davi – o sorriso em sua face se ampliando e deixando a mostra seus dentes perfeitos e muito brancos, que contrastavam com a cor dourada de sua pele lisa, ainda agora, se sentia em jubilo só de lembrar-se do dia em que jurara se dedicar a Deus, pensou afastando um cacho negro e brilhante de seus cabelos que lhe caíra nos olhos, sempre soubera qual era o seu destino, assim como sempre soubera também que este seria servir a Deus.

Percebeu distraído, que o céu já estava quase totalmente negro e voltou-se apressado para o interior da igreja, tinha ainda que acender todas as velas e também os incensários, tudo devia estar pronto para a noite, e para quando ela chegasse.

- O meu anjo – disse baixinho, enquanto caminhava de volta a Igreja.

Ela começara a aparecer a cerca de três meses, vinha toda noite, não importava como estivesse o tempo, entrava pela porta lateral, sempre com o capuz levantado cobrindo seu rosto, caminhava devagar até o confessionário da esquerda e lá entrava para passar cerca de duas horas conversando com Davi.

Sua voz era doce e macia, e através daquela voz, Davi podia supor que ela fosse tão jovem quanto ele. Apesar de nunca tê-la visto realmente, a não ser pela entretela da pequena cabine do confessionário, sabia através dos pequenos relances, que sua pele era muito branca, que seus cabelos eram castanhos dourados e que seus movimentos eram ágeis e graciosos como os das verdadeiras damas.

Sabia pelas suas conversas que ela devia pertencer a uma família abastada, pois sempre lhe contava de suas viagens pelo mundo, e Davi se inebriava com seus relatos dos povos, das cores, sons e perfumes dos lugares exóticos que ela visitava, se inebriava principalmente com as igrejas que ela lhe descrevia em detalhes.

Nunca estranhara o fato dela não lhe contar nada de realmente pessoal, ou dela ser sempre tão curiosa com relação a vida de Davi no mosteiro, ou mesmo de antes do mosteiro, pedia-lhe inúmeras vezes que descrevesse para ela sua família, a vila onde morara antes de ir para o mosteiro, e ele lhe contava tudo de que podia se lembrar, feliz e encantado pela atenção recebida.

Sem se dar conta realmente, passava os dias ansioso, a espera da chegada da noite, a espera daquele momento mágico em que ouviria o suave toque dos passos dela pelo corredor de mármore, a espera de sentir o perfume que seu anjo deixaria ao se aproximar dele.

As horas se arrastaram naquela noite quente, a brisa leve que entrava pelas altas janelas, não era suficiente para refrescar o ambiente abafado da noite de verão.

Davi se sentou pela milésima vez, sonolento pelas horas de espera e pelo calor sufocante. Olhou novamente para o relógio e um medo surdo lhe subiu pelas costas, 23:00 horas, ela nunca demorara tanto, teria acontecido algo, pensamentos envolvendo todo tipo de acidentes lhe invadindo a mente cansada. - E se ela não vier? – murmurou baixinho – E se ela não vier nunca mais? - sentiu-se tremer – Não – sua voz baixa, mas cheia de fervor, cerrou os olhos e murmurou uma prece pedindo pela proteção ao seu anjo.

E então um sorriso formou-se em sua face ao sentir um perfume, ao sentir o perfume de seu anjo. Não abriu os olhos, ficou parado, extasiado com a fé que se renovava em seu peito ao ouvir o som dos passos dela pelo corredor da igreja, caminhando lentamente até o confessionário, ouviu, ainda de olhos fechados, a pesada cortina que servia de porta ao confessionário ser puxada e solta, indicando que ela já entrara, que ela estava a sua espera.

Levantou-se e ainda de olhos fechados, orou – Obrigada, Senhor!
Foi então feliz para o confessionário, respirando devagar, absorvendo o perfume que parecia colorir o ar ao seu redor. Entrou e sentou em silencio no escuro.

- Me perdoe padre, eu pequei.
- Você demorou – Davi não conseguiu impedir que seu tom soasse magoado – Temi que não viesse.
- Quase não vim... Mas não podia deixar de me despedir de você.
- Despedir... ? Vo-você vai embora?
- Sim – ela respondeu suavemente – Mas gostaria de lhe deixar um presente, algo para que você se lembre de mim.
- Sempre me lembrarei de você.
Ela ficou em silencio, e ele pode ver pela entretela apesar dela estar com a face abaixada que seu rosto estava triste, indeciso, ela parecia debater mentalmente.
- O que te aflige? - Davi perguntou.
- Você pode sair? – ela perguntou – Está tão quente hoje, podíamos passear lá fora? Sei que não é o normal, mas...
- Sim – ele respondeu apressado, preocupado com a agitação na voz dela, sempre tão calma – Não há problema em sairmos. – se animou intimamente, ele iria vê-la, pela primeira vez, ver seu rosto sem a barreira do capuz ou da entretela, surpreendeu-se de seu tom soar calmo.

Davi a viu se levantar e sair pela porta do confessionário, levantou-se e saiu, se apressando em segui-la pelo corredor ate a porta lateral que dava para os jardins, notou enquanto caminhava que a igreja estava quase vazia, apenas 3 pessoas, todos ocupados com suas próprias orações, sequer ergueram os olhos à passagem dela e do padre.

Os dois caminharam devagar e em silencio pelo jardim da praça onde ficava a igreja ate um pequeno banco de madeira onde se sentaram, ela permanecia calada, seus olhos perdidos na paisagem noturna, Davi observou seu rosto iluminado pela luz da lua, ela era exatamente como ele imaginara, traços delicados como um anjo, bela como devia ser um anjo.

- Eu nasci em uma vila como esta – ela cortou o silencio suavemente, ainda olhando para longe – cresci freqüentando uma igreja como esta, eu e meus irmãos éramos muito felizes em nossa inocência e simplicidade – sua voz se abaixou, continuou quase sussurrando – Provavelmente, teria me casado com algum camponês de lá, teria formado uma família, e minha vida continuaria sendo simples, mas feliz.
- Se as coisas não sairão como você planejou, é por que os planos Dele para você eram diferentes
– Davi disse – devemos sempre tentar entender o que ele quer de nós e aceitar nossas missões.
- Talvez – ela virou o rosto e fixou os olhos em Davi – Você realmente crê nisso não é?
- Sim – Davi respondeu convicto – Acredito que tudo que acontece é pela intervenção Dele.
- Você tem sorte – ela continuou olhando para ele – Quando olho em seus olhos, vejo apenas certezas e paz – ela sussurrou – seus olhos não mudaram apesar de tudo o que você viu quando tinha apenas 3 anos.

Davi apenas olhou para ela sem entender, ela percebeu sua confusão e continuou – Penso que talvez você tenha esquecido o porquê de ter ido para o mosteiro ainda tão jovem. Perguntei de sua vida antes de ir para lá, diversas vezes, e nunca você mencionou o motivo – ela sorriu triste – O motivo fui eu.

- Eu não entendo..?! – Davi estava cada vez mais confuso, e agora, percebia algo no tom dela, algo que o incomodava. Então o sorriso na face dela se alargou, seus lábios se abriram e ele pode ver seus dentes muito brancos brilhando ao luar, pode ver suas presas.

E a memória daquela noite voltou a sua mente como um flash. Os estranhos invadindo a cidade, todos jovens, todos muito belos. Lembrou de pensar quando os viu - Belos como anjos - e então o pesadelo começara, eles perseguiram e mataram todos da pequena vila, lembrou-se dos gritos, do terror, do medo no rosto de sua mãe quando um deles a carregara para longe dele. Lembrou de ter fechado os olhos e orado por ajuda, e de sentir alguém lhe segurando e o mandando abrir os olhos, lembrou-se de ter obedecido, aterrorizado pelo medo, e de se ver encarando o mais belo rosto que já vira antes, um rosto de traços delicados e com cabelos dourados que o emolduravam, e o medo sumiu, e Davi se sentira seguro naqueles braços, a mulher então olhara fixamente em seus olhos por alguns momentos e sorrira lhe dizendo suavemente – Você tem sorte.

Davi se levantou abruptamente do banco de madeira, olhando para a jovem em choque, ela segurou sua mão, seu toque leve, mas firme, percebendo que ele estava prestes a sair correndo.

- Não tema meu jovem amigo – ela disse, e sua voz voltou a ser apenas um sussurro triste – Não pude lhe ferir naquela época, e ainda não posso fazê-lo agora.

Ele voltou a se sentar, devagar, inseguro do que fazer ou pensar, atordoado pelas memórias a tanto esquecidas, mas compelido pelo mesmo sentimento de segurança que sentira uma vez, há muito tempo atrás, um sentimento que o toque dela em sua mão lhe inspirava – O que é você?

- O que sou eu...? – ela respondeu, seus olhos perdidos no nada, como se falasse consigo mesma - Eu sou algo que não faz parte dos planos Dele... Sou algo interrompido, algo que não teve escolha de se tornar o que é – Seu tom de voz se tornando mais rápido e intenso - Algo que apesar do mal que causa, não é completo, pois se subjuga e se transtorna frente à fé que vê nos olhos de um pequeno garoto – seus olhos voltaram-se a ele - Algo incompleto por não poder ser totalmente mal, nem ter a opção do bem, algo que implora pelo esquecimento das memórias de uma vida para sempre perdida, mas que ao mesmo tempo se agarra a ela, visitando noite após noite alguém que consegue aquecer estas mesmas memórias – Ela suspirou, cansada pelas emoções conflitantes e continuou – Sou algo, meu tão doce e querido Davi, que mesmo sem saber explicar o motivo, esta aqui para salva-lo, novamente.

Dizendo isso, ela colocou as mãos em seus ombros, e olhando diretamente em seus olhos, de forma intensa e hipnótica, disse – Durma minha criança, comigo você estará sempre seguro.

Dois dias depois, Emanuelle entrou na sala da grande casa, as paredes iluminadas pelas velas davam um aspecto ainda mais quente ao lugar, a decoração do ambiente nunca fora muito de seu agrado, Henry era francês ate no seu gosto por moveis e optara por um estilo rococó exagerado, muito colorido que deixava um ar carregado, uma sensação de poluição visual. Mas ele adorava, e no fundo - ela pensou, olhando para o rapaz, confortavelmente sentado em uma poltrona de canto - combinava perfeitamente com ele

- Estamos no jornal de novo – Henry falou com um sorriso travesso ao vê-la entrando – Quero dizer, eu e os outros, já que você não quis nos honrar com sua presença – ele se levantou e estendeu o jornal para que ela visse a noticia.

“A pequena cidade de Santa Maria sofreu uma tragédia na ultima noite de quinta, apesar de não haver testemunhas, os policiais que investigam o caso alegam ter sido trabalho de uma gangue de bandidos, que invadiram e mataram todos os moradores, houve apenas um sobrevivente. O padre Davi Esteban que alega ter saído para caminhar pelos arredores e acabou adormecendo na floresta ao lado da cidade, quando acordou a tragédia já havia ocorrido e ele não viu nada.”

Ao lado da matéria estava à foto de um jovem padre, de cabelos encaracolados, pele dourada e olhar perplexo, embaixo da foto a legenda – Padre Esteban, disse não saber por que sobreviveu, mas crê em intervenções divinas

Ela terminou de ler e em silencio devolveu o jornal a Henry, virando de costas a ele, andou ate a janela aberta para a rua, e ficou olhando o movimento lá fora.

- Não sei por que nossas pequenas festas te incomodam tanto – ele continuou falando, interpretando o silencio dela como reprovação – E são tão raras também, só nos reunimos uma vez a cada 10 anos – ele suspirou e desistiu ao perceber que ela não entraria novamente naquela discussão, mudou o rumo da conversa - Estranho ele ter escapado, o tal padre, acho que estamos nos descuidando... Ele me parece conhecido, você não acha?

- Não – Emanuelle respondeu rápido - Nunca o vi antes

- Muito estranho mesmo – Henry continuou sem prestar atenção às reações de Emanuelle, perguntou olhando para a foto no jornal – E então, você acha que pode ter sido mesmo?
- Ter sido o que? – Emanuelle voltou-se na direção de Henry, encarando-o apreensiva.
- Intervenção divina? - ele riu sarcástico.
- Não – ela suspirou e voltou a olhar o movimento da rua pela janela, as pessoas passeando calmamente pela avenida arborizada, a noite tranqüila, todos alheios ao que vivia ali, ao mal que os observava - Não houve intervenção divina... Ele apenas... tem sorte.
by Peper

0 comentários:

Postar um comentário