Ela apertou o botão da régua de energia, desligando o CPU, exatamente no momento em que o ponteiro dos minutos do relógio movia-se para o cinco, 20:05 horas, repetiu então sua pequena rotina diária, pegou as chaves do espaço embaixo da mesa, o celular embaixo do monitor, enfiou o isqueiro dentro do maço de cigarros pela metade, levantou e pegou a bolsa pendurada no cabide atrás do armário, pegou o cadeado na gaveta, andou até a porta dupla de vidro, encaixou as chaves, apagou as luzes, puxou as folhas da porta, apertou com força a fechadura, a chave continuava enroscando, andou até o carro, tirou-o da garagem, embicando na rua, parou, desceu, fechou as grades do escritório, colocou o cadeado, voltou ao carro, esperou a rua ficar livre e saiu com o carro.
Começou a dirigir pelo caminho que fazia todos os dias para sua casa, automaticamente, como fazia sua pequena rotina de fechamento do escritório, sem ter que pensar, e deixou a mente vagar, o que também fazia parte da rotina, pensamentos desconexos passando por sua mente, o que ia passar na TV aquela noite, precisava separar as contas do mês e ir ao banco paga-las, a luz viera mais alta que o normal este mês, precisava chamar a atenção de Joana, sua filha, ela nunca apagava as luzes, tinha que ir a faculdade qualquer dia na próxima semana, buscar seu certificado de conclusão de curso para fazer a matricula da pós graduação, era a ultima semana de matricula.
O símbolo colorido de combustível acendeu no painel do carro, olhou para o ponteiro, chegando na reserva, ainda dava para mais um dia, estava chovendo, abasteceria amanha, não estava com pressa, não tinha nada para fazer em casa realmente, nada de importante, mas podia abastecer depois, olhou para a rua molhada ao entrar na avenida dupla que seguia praticamente inteira no caminho de sua casa.
Deslumbrante – a palavra surgiu em sua mente, o céu lembrava um túnel, nuvens de um tom cinza escuro cobriam praticamente todo o céu, a não ser por uma pequena faixa na linha do horizonte, onde podia-se vislumbrar o fim do dia, tons de vermelho, rosa, laranja colorindo de forma aleatória um céu azul turquesa, as cores se sobressaiam mais que o normal colocadas assim ao lado do cinza escuro que tingia todo o resto do céu, a chuva fraca molhando tudo, e as luzes dos carros indo e vindo, se sentiu dentro de uma pintura de Thomas Kinkade, cercada de cores e luzes que nem ao certo sabia de onde vinham
Estava mais movimentada que o normal, a avenida dupla, - é por causa da chuva – se respondeu mentalmente a muda pergunta, ninguém quer andar e se molhar quando pode usar o conforto dos carros, viu pela beira dos olhos uma criança abrir o portão de uma casa um pouco a frente, viu meio sem ver, enquanto o carro avançava em meio a chuva e as cores, que a criança deixou o portão aberto e que já andava pela calçada apressada pela chuva, e o cão saiu pelo portão esquecido aberto, correu diretamente para a rua em frente ao carro.
Foi muito rápido, e ao mesmo tempo, em câmera lenta, ela tentou frear o carro, mas o chão molhado não o deixou parar, sentiu o movimento de derrapagem antes que seu cérebro entendesse o que estava acontecendo, e o carro deslizando para a esquerda, para a pista ao lado, a traseira primeiro, e a luz branca batendo em seu rosto, a luz do farol do caminhão que vinha na outra pista, direto em sua direção.
Preparou-se para o tal filme, aquele com a retrospectiva de sua vida, o que será que veria – o que teria a importância certa, a relevância necessária para se ver como ultima coisa de sua vida, sentiu-se mais curiosa que assustada, mas o filme não veio, apenas os mesmos pensamentos desconexos de antes. Não precisaria abastecer o carro amanha afinal, não faria o curso de pós-graduação que havia planejado, não iria assistir o filme que passaria na tv e que já havia assistido antes, não faria nada, nenhum grande sonho se realizaria, nenhum grande amor digno de ser impresso em forma de romance, nada, nem pequeno, nem grandioso, apenas o inexorável fim, que grande piada.
Mas o movimento do carro mudou, sentiu-o guinar novamente a direita, a luz dos faróis do caminhão mudando de foco, saindo de cima de seus olhos, as belas e brilhantes luzes de Kinkade tornando-se visíveis de novo, e o caminhão passou a centímetros pela lateral do carro – 10 centímetros talvez – pensou e duvidou – não, no máximo 5, muito, muito perto – voltou a sentir seu corpo, como se ele não estivesse lá a apenas alguns segundos atrás, viu sua mão na direção do veiculo, ela havia virado a direção a direita, olhou de novo, sua própria mão lhe parecia algo alienígena, quando foi que seu cérebro dera esta ordem a ela, examinou-o rapidamente, e não achou a ordem, - instinto – sim, se isso não fosse instinto de sobrevivência, nada mais seria.
Sua garganta ardeu quando o ar voltou a passar por ela, se sentiu cansada e tremula, mas seu pé ainda estava no acelerador, e o carro ainda andava, agora de volta a sua própria pista, olhou pelas janelas do carro ao redor, o mundo parecia normal, ninguém percebera seu fim ali? Ninguém notara sua quase morte, estúpida e tola, trágica em sua própria simplicidade, um portão esquecido aberto, um cão atravessando a rua na hora errada, um caminhão cruzando a pista contraria em um momento inoportuno, apenas isso, inoportuno.
Nada, o mundo estava igual, alheio ao seu pequeno drama, seu pequeno acaso na passagem do tempo, talvez fosse apenas isso, nossas vidas, pequenos acasos perdidos em todo aquele caos generalizado, puxou o ar com mais força, era melhor passar na padaria, não estava com vontade de fazer janta hoje, como era mesmo o nome do filme que ia passar na tv, podia pegar pipoca e coca na padaria também, o que será que houve com o cão afinal?
Começou a dirigir pelo caminho que fazia todos os dias para sua casa, automaticamente, como fazia sua pequena rotina de fechamento do escritório, sem ter que pensar, e deixou a mente vagar, o que também fazia parte da rotina, pensamentos desconexos passando por sua mente, o que ia passar na TV aquela noite, precisava separar as contas do mês e ir ao banco paga-las, a luz viera mais alta que o normal este mês, precisava chamar a atenção de Joana, sua filha, ela nunca apagava as luzes, tinha que ir a faculdade qualquer dia na próxima semana, buscar seu certificado de conclusão de curso para fazer a matricula da pós graduação, era a ultima semana de matricula.
O símbolo colorido de combustível acendeu no painel do carro, olhou para o ponteiro, chegando na reserva, ainda dava para mais um dia, estava chovendo, abasteceria amanha, não estava com pressa, não tinha nada para fazer em casa realmente, nada de importante, mas podia abastecer depois, olhou para a rua molhada ao entrar na avenida dupla que seguia praticamente inteira no caminho de sua casa.
Deslumbrante – a palavra surgiu em sua mente, o céu lembrava um túnel, nuvens de um tom cinza escuro cobriam praticamente todo o céu, a não ser por uma pequena faixa na linha do horizonte, onde podia-se vislumbrar o fim do dia, tons de vermelho, rosa, laranja colorindo de forma aleatória um céu azul turquesa, as cores se sobressaiam mais que o normal colocadas assim ao lado do cinza escuro que tingia todo o resto do céu, a chuva fraca molhando tudo, e as luzes dos carros indo e vindo, se sentiu dentro de uma pintura de Thomas Kinkade, cercada de cores e luzes que nem ao certo sabia de onde vinham
Estava mais movimentada que o normal, a avenida dupla, - é por causa da chuva – se respondeu mentalmente a muda pergunta, ninguém quer andar e se molhar quando pode usar o conforto dos carros, viu pela beira dos olhos uma criança abrir o portão de uma casa um pouco a frente, viu meio sem ver, enquanto o carro avançava em meio a chuva e as cores, que a criança deixou o portão aberto e que já andava pela calçada apressada pela chuva, e o cão saiu pelo portão esquecido aberto, correu diretamente para a rua em frente ao carro.
Foi muito rápido, e ao mesmo tempo, em câmera lenta, ela tentou frear o carro, mas o chão molhado não o deixou parar, sentiu o movimento de derrapagem antes que seu cérebro entendesse o que estava acontecendo, e o carro deslizando para a esquerda, para a pista ao lado, a traseira primeiro, e a luz branca batendo em seu rosto, a luz do farol do caminhão que vinha na outra pista, direto em sua direção.
Preparou-se para o tal filme, aquele com a retrospectiva de sua vida, o que será que veria – o que teria a importância certa, a relevância necessária para se ver como ultima coisa de sua vida, sentiu-se mais curiosa que assustada, mas o filme não veio, apenas os mesmos pensamentos desconexos de antes. Não precisaria abastecer o carro amanha afinal, não faria o curso de pós-graduação que havia planejado, não iria assistir o filme que passaria na tv e que já havia assistido antes, não faria nada, nenhum grande sonho se realizaria, nenhum grande amor digno de ser impresso em forma de romance, nada, nem pequeno, nem grandioso, apenas o inexorável fim, que grande piada.
Mas o movimento do carro mudou, sentiu-o guinar novamente a direita, a luz dos faróis do caminhão mudando de foco, saindo de cima de seus olhos, as belas e brilhantes luzes de Kinkade tornando-se visíveis de novo, e o caminhão passou a centímetros pela lateral do carro – 10 centímetros talvez – pensou e duvidou – não, no máximo 5, muito, muito perto – voltou a sentir seu corpo, como se ele não estivesse lá a apenas alguns segundos atrás, viu sua mão na direção do veiculo, ela havia virado a direção a direita, olhou de novo, sua própria mão lhe parecia algo alienígena, quando foi que seu cérebro dera esta ordem a ela, examinou-o rapidamente, e não achou a ordem, - instinto – sim, se isso não fosse instinto de sobrevivência, nada mais seria.
Sua garganta ardeu quando o ar voltou a passar por ela, se sentiu cansada e tremula, mas seu pé ainda estava no acelerador, e o carro ainda andava, agora de volta a sua própria pista, olhou pelas janelas do carro ao redor, o mundo parecia normal, ninguém percebera seu fim ali? Ninguém notara sua quase morte, estúpida e tola, trágica em sua própria simplicidade, um portão esquecido aberto, um cão atravessando a rua na hora errada, um caminhão cruzando a pista contraria em um momento inoportuno, apenas isso, inoportuno.
Nada, o mundo estava igual, alheio ao seu pequeno drama, seu pequeno acaso na passagem do tempo, talvez fosse apenas isso, nossas vidas, pequenos acasos perdidos em todo aquele caos generalizado, puxou o ar com mais força, era melhor passar na padaria, não estava com vontade de fazer janta hoje, como era mesmo o nome do filme que ia passar na tv, podia pegar pipoca e coca na padaria também, o que será que houve com o cão afinal?
By Peper
0 comentários:
Postar um comentário